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avôs
Palavras esquecidas

Cláudio Moreno

BALBO, ALPONDRA, BELFO, mádido, sordes e sestro já cumpriram sua missão, mas a aposentadoria não precisa ser definitiva

Numa língua moderna e dinâmica como a nossa, é natural que, como a erva daninha, nasçam vocábulos novos por toda a parte. O curioso, prezado leitor, é que essa fecundidade lexical, que deveria ser saudada aos quatro ventos como sinal de pujança do idioma, parece causar nas pessoas uma indisfarçável apreensão – e confesso que já perdi a conta das colunas que foram dedicadas a defender essas palavras recém-chegadas, geralmente vistas com desconfiança, quando, bem ao contrário, deviam ser recebidas com palmas, hurras e bandeirinhas.

Preocupadíssimo em vigiar na estrada os vocábulos que chegam, o brasileiro raramente volta os olhos para o lado oposto, para se despedir dos vocábulos que, depois de aposentados, terminam caindo no esquecimento absoluto. Não vão fazer falta, é verdade – como na natureza, são animais que já cumpriram sua missão e agora devem se retirar de cena; não por isso, contudo, devem ser esquecidos. Assim como falamos no pássaro dodô ou no tigre-dentes-de-sabre, ambos extintos, acho que também deveríamos fazer o mesmo com palavras como balbo, alpondra, belfo, mádido, sordes ou sestro, por exemplo.

Para os antigos, balbo é “aquele que pronuncia mal as palavras; o gago” – certamente o avô de nosso balbuciar. Belfo é aquele “que tem o beiço inferior mais grosso que o superior (como os cavalos)”. O adjetivo mádido – “levemente molhado; úmido” – é usado por Cruz e Souza no seu Antífona (um dos poemas que tínhamos de decorar na escola – no bom tempo em que sumidades pedagógicas ainda não tinham iniciado sua danosa e medíocre campanha contra a memória): “Brilhos errantes, mádidas frescuras/E dolências de lírios e de rosas”. Bem menos poético é sordes (da família de sórdido), “imundície; a matéria grossa e pegajosa das chagas”. Por sua vez, sestro fazia dupla com destro (esquerdo x direito), além de designar “trejeito, gesto habitual, que a repetição torna mais ou menos esquisito” – como vemos em Machado: “... ele adquiriu o sestro de mortificar o buço, puxando-o muito de um e outro lado”.

É importante frisar que nem sempre essa aposentadoria é definitiva. Em sua Origem da Língua Portuguesa, Duarte Nunes de Leão – gramático português, um dos primeiros autores a estudar nosso idioma – relaciona, lá por volta de 1600, mais de uma centena de vocábulos que considera antiquados, dentre os quais há vários que hoje voltaram à ativa: algo (“alguma cousa”), aquecer (“esquentar”), britar (“quebrar”), confortar (“consolar”), esmerar (“fazer alguma coisa com diligência”), finado (“defunto”), lídimo (“legítimo”), sanha (“ira”). Foi o que me aconteceu com alpondras – ou simplesmente pondras –, que são aquelas pedras que formam, de uma margem à outra de um curso d’água, um caminho que permite atravessá-lo (“...conseguimos atingir a margem oposta, saltando com esforço de alpondra em alpondra”). Pois esta palavra passou a fazer parte do meu vocabulário quando, nos anos 70, o saudoso professor Manuel Luiz Leão a trouxe de volta do esquecimento para traduzir o Inglês steppingstone, de uso frequente no âmbito da informática.


Sábado, 24 de outubro de 2015.



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